A crise dos pobres é socialmente desviante. A fome nunca foi boa
conselheira. O Continente ou o Lidl podem atestar estas afirmações. Partir daí
para um discurso de meter medo e estimular o ego das polícias é simples
demagogia. A melhor prevenção é dar de comer a quem tem fome e de beber a quem
tem sede.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
A prova real
Três arguidos que “o Ministério
Público acusava de sujeitarem seis homens fragilizados a trabalho escravo”
foram absolvidos em julgamento realizado no Tribunal Judicial de Valongo. É o
que noticia, hoje, o Jornal de Notícias. Esta foi uma estória amplamente
divulgada e parecia ser um caso com uma prova consolidada. Ainda segundo o JN, “na leitura do acórdão, o colectivo de juízes
sublinhou que não podia condenar com base nos testemunhos indirectos que
dominaram a fase de produção de prova.” A prova real de uma investigação
tira-se em julgamento, o que parecendo óbvio continua ainda a ser ignorado.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
O suspeito
A um tempo, cada um pode ser suspeito ou suspeito não; depende da perspetiva. Ser um suspeito não em um instante não garante que não se seja um suspeito no seguinte. Não há conceito mais volátil, mais impraticável, do que o de suspeito. Tem estado ao serviço da calúnia e de alguma prática política. Bani-lo do jargão judiciário seria uma obra de misericórdia.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Escutas minhas 2
Um cidadão, incluindo o cidadão Passos Coelho, pode dizer, em caso de ter as suas conversas telefónicas gravadas numa investigação criminal, que gostaria estas fossem tornadas públicas. Um primeiro-ministro, incluindo o primeiro-ministro Passos Coelho, não o deve dizer. Foi por isso mesmo que considerei infelizes as declarações de Pinto Monteiro ao aconselhar José Sócrates no sentido de permitir a divulgação de conversas obtidas em idênticas circunstâncias. Um primeiro-ministro não pode pactuar com a violação de princípios que descredibilizam um Estado de Direito. O argumento proto-populista quem não deve, não teme não é uma razão de Estado.
sábado, 20 de outubro de 2012
Escutas minhas
Não deixa de ser caricato que, quando se proclama o fim da impunidade, a polícia tropece em Passos Coelho. A história, sendo rápida, repete-se fria.
O árbitro e a sua condição
Um árbitro que se candidate a Presidente da Direção do Benfica pode, perdendo as eleições, voltar a ser árbitro? Se fosse do Porto, de certeza que haveria muitas vozes gritando que não.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Por inglês ouvir
Ontem, ouvi Passos Coelho, em Bucareste, no congresso do Partido Popular
Europeu, falar num inglês improvável. Tive saudades do inglês técnico de José Sócrates.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Uma multa redundante
Pode um magistrado judicial mandar notificar “as partes” para juntarem ao processo cópia dos articulados em formato digital, gravados em CD-ROM e formato WORD, com a advertência, presumo que solene, que o incumprimento “redundará” em condenação em multa? Poder, pode. Mas deve?
Já escrevi sobre os suportes digitais e o seu contributo para uma justiça cada vez mais redundante. Não se afigurava era que a redundância pudesse vir a dar em multa.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Contrato a termo, ónus da prova
Ainda que nem sempre, a jurisprudência também comanda a vida. É o caso do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, a seguir sumariado, de que foi relator o Conselheiro Pinto Hespanhol.
1. Para que o termo aposto num
contrato de trabalho seja válido não basta a indicação do motivo justificativo
e que este faça parte do elenco contemplado nas alíneas do n.º 2 do citado
artigo 140.º, sendo, ainda, indispensável que esse motivo tenha correspondência
com a realidade.
2. Sendo o motivo justificativo para a contratação a termo a substituição de
trabalhadores em período de férias, concretamente identificados no contrato, ao
empregador compete provar que tal motivo corresponde à verdade, o que exige a
prova de que aqueles trabalhadores estiveram efetivamente de férias no período
correspondente à contratação do trabalhador substituto.
3. Não se tendo provado que a trabalhadora contratada a termo esteve, de facto, a
substituir os trabalhadores concretamente indicados no contrato de trabalho
como estando em férias, não se pode associar validamente tal contratação à
substituição dos identificados trabalhadores, pelo que deve considerar-se sem
termo o contrato de trabalho celebrado entre as partes.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
O sentido da iniciativa
Não será necessário acompanhar o folhetim da Tecnoforma com um Código
Penal ao lado para perceber que, por muito menos, tiveram início investigações
criminais. O sentido da iniciativa, ao longo dos anos, não se tem pautado por
uma uniformidade de critérios que concite a transparência. De recortes de
jornais a denúncias anónimas e queixas despeitadas, o cemitério dos arguidos
está cheio. O gesto fundador de um inquérito, abrindo as portas a uma
investigação criminal, deveria ser levado a sério: primeiro pensado, depois
determinado.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
A desjustiça
No dia em que se inicia um novo ciclo para o Ministério Público, a
sondagem publicada pelo Expresso não pode ser ignorada. O descrédito da justiça e a desconsideração
dos seus atores raiam aquela linha que separa a função da disfunção. É no
quotidiano dos tribunais, no exercício de uma justiça atenta e atenciosa, que
será possível encontrar a resposta adequada.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
O Gebo e a Sombra
Ao ver o filme de Manoel de Oliveira, ocorreu-me a expressão de Raúl
Brandão, no Húmus: Com ilusões podia-se
ser pobre – sem ilusões só se pode ser rico. Nos tempos que correm, não
sendo propícios às ilusões e com uma riqueza a dividir por cada vez menos, a
dignidade de um Gebo é um anacronismo histórico. E a Sombra, a que perseguia o
Gebo, tornou-se numa contabilidade sem glória.
Também tenho um Santo
"Alípio nascera no mesmo município que eu. Seus pais eram da gente principal da cidade e ele era mais novo do que eu. Fora meu aluno quando comecei a ensinar na nossa terra e depois em Cartago. Estimava-me muito, por lhe parecer bom e sábio, e eu apreciava-o pela índole inclinada à virtude, que já brilhava em tenra idade. Porém, o abismo dos costumes cartagineses, onde fervem os espetáculos frívolos, engolfara-o na loucura dos jogos circences."
Santo Agostinho, Confissões
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Pela abolição universal da pena de morte
Uma interessante entrevista de Robert Badinter pode ser ouvida aqui. Por falta de capacitação técnica, não insiro o vídeo.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Minority Report
Os julgamentos populares, sejam na praça pública, nos meios de
comunicação, ou em qualquer esquina de uma qualquer localidade, têm subjacente
a crença de que os criminosos antecedem os crimes. É uma crença que não está
longe da ficção científica nem de uma cultura em que a retórica da impunidade
tem virtudes mágicas. Lombroso, apesar do tempo passado, sobrevive, ainda que com
outras vestes.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Os justiçados
«Em 7 de maio e 9 de outubro de 1829, foram enforcados no Porto seis homens do distrito de Aveiro: o desembargador Gravito, Magalhães Seão, Soares de Freitas, Manuel Nogueira, Morais Sarmento e Henriques Ferreira - os célebres justiçados da revolução liberal de 16 de maio de 1828.
Em 1 de julho de 1867, a pena de morte foi abolida. A última execução dera-se, porém, em 16 de abril de 1842, na pessoa de um criminoso.
Quer isto dizer que, entre a supressão dos aveirenses e a da pena, mediaram treze anos apenas! O castigo infligido ao civismo deixara de servir para os próprios delinquentes... E o país que, no coice da Europa, cometera as maiores barbaridades durante a vigência dos caceteiros, punha-se na vanguarda dela menos de cinco lustres depois. O sangue gerava flores!»
Mário Sacramento, Diário
Em 1 de julho de 1867, a pena de morte foi abolida. A última execução dera-se, porém, em 16 de abril de 1842, na pessoa de um criminoso.
Quer isto dizer que, entre a supressão dos aveirenses e a da pena, mediaram treze anos apenas! O castigo infligido ao civismo deixara de servir para os próprios delinquentes... E o país que, no coice da Europa, cometera as maiores barbaridades durante a vigência dos caceteiros, punha-se na vanguarda dela menos de cinco lustres depois. O sangue gerava flores!»
Mário Sacramento, Diário
sábado, 6 de outubro de 2012
Indemnizar o erro judiciário
Louisville metro government agreed to pay $8.5 million Thursday to settle a federal lawsuit filed by Edwin Chandler, who spent nine years in prison after being wrongfully convicted of murder.
courier-journal.com
courier-journal.com
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Expulsos do país
Em 5 de outubro de 1969, em Ançã, junto do busto de
Jaime Cortesão, o Professor Henrique de Barros disse no discurso que então proferiu:
Jaime
Cortesão saiu da prisão em Portugal para o Brasil com passaporte em que se liam
estas palavras: expulso do país. Mas
o Brasil recebeu-o com as maiores distinções, no seu melhor instituto, o do Rio
Branco, e deu-lhe todas as facilidades para os trabalhos de investigação
histórica, que foram notáveis.Hoje, no 5 de outubro de 2012, falou-se dos jovens qualificados, dos muitos que saem do país, sem o anátema no passaporte, mas, certamente, com idêntica perceção do abandono e da esperança.
5 de outubro de 2012
Pior de que um país sem um presidente ou sem um governo, só um presidente ou um governo sem um país.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Sem pais
Em 2011,
apesar de todos os ADNs, pelo menos 538 processos de averiguação oficiosa de
paternidade foram julgados inviáveis por não se terem recolhido elementos de
prova que permitissem a identificação dos pais. Trata-se de um número
significativo, merecendo que a Procuradoria-Geral da República providenciasse
uma análise qualitativa no sentido de encontrar as razões do insucesso.
Estes e outros dados
constam do Relatório da PGR, respeitante a 2011, agora disponibilizado, que
pode ser consultado aqui.
sábado, 29 de setembro de 2012
Outra libertação
"Damon Thibodeaux, condenado à morte no
estado norte-americano do Luisiana, foi declarado inocente, 15 anos depois de
ter sido preso, após exames de ADN terem provado que não participou na violação
e homicídio de uma adolescente em 1996. "
A implosão
Todos os dias temos sinais de desagregação política. Da impunidade da
Ministra da Justiça à ignorância de António Borges, os discursos perderam o
sentido da governação para se tornarem no espelho do desespero. Quando o que os
liga à realidade é uma voz precária, então a remodelação é uma exigência.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
As impressões digitais em causa
"Fingerprint matching is a vital investigative tool. But despite its legendary aura of infallibility, courtroom claims of fingerprints’ uniqueness are slowly receding."
Pacific Standard
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