sábado, 23 de maio de 2020

Diário

Há dias, Marcelo, o comentador, aviou mais um ministro; não resistirá à tentação de vir a aviar um primeiro-ministro.

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Iniciei este blogue há dez anos. Com mais ou menos assiduidade, fui postando ao sabor dos dias e contra a corrente. Ainda não sei se a pandemia é uma razão para acabar ou para continuar.

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Contra o esquecimento, é fundamental a leitura do texto de Eduardo Pitta sobre a morte violenta de um cidadão ucraniano quando se encontrava sob a tutela do Estado Português. Aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Diário

Valeu a pena? É difícil adivinhar o juízo da história. Desconfinar é começar a esquecer.

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As medidas de clemência foram justificadas, ainda que pudessem ter sido mais corajosas. 
Em França, entre 16 de março e 23 de abril, o número de presos passou de 72600 para 61100 (-15,8%).
A pandemia talvez seja um bom pretexto para repensar a prisão como paradigma da justiça.

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É o tempo das máscaras. Entrarão nos nossos hábitos?

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Diário

Segundo o Expresso de 25 de abril, houve uma redução de 80% nas análises clínicas, 95% na imagiologia e 100% em exames de cardiologia e gastroenterologia.
Quando for o tempo de recuperar estes exames que ficaram por fazer e que, com certeza, se continuam a acumular, qual será a capacidade de resposta dos serviços de saúde?

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Em tempo de pandemia, o espaço para os juristas é pequeno. Que a febre seja medida aos trabalhadores nas empresas, poucas, ainda em laboração, será uma medida sanitariamente cautelar, entre outras, que o bom senso aconselha.

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Se é verdade que a cor do medo será a da prudência, não é menos verdade que o excesso de prudência nos deixa inertes e sem futuro.

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Ainda voltando ao Expresso de 25 de abril: confinamento maior nos concelhos mais ricos. Evidentemente. Para os mais ricos, o confinamento é uma aventura; para os mais pobres, é uma tragédia.

sábado, 25 de abril de 2020

O EXACTO BEM*

Só se deve sonhar em comum.

O pensamento não cinge, converte.

É preciso despegar a alma das fibras dos sentimentos.

Abominar a realidade, mas não lhe fugir.
Ter documentos móveis e instantâneos, que se enovelam e decifram.
Ser um gato, parado, ao sol, que abre de vez em quando uns verdes olhos, cheios de cambiantes.
Calar o medo e o pavor.

O que sobra de nós, fica nos outros. Que o repelem.
O constrangimento revela a diferença e a suspeita.
Nenhum entendimento entre a água e a pedra.

É preciso somar os minutos inconformes. E atirá-los à cara do primeiro transeunte.

Dominar - a correr - a imaginação. Causa de tantas mortes.

14 de Fevereiro de 1969.

*Raul de Carvalho (1920-1984), do livro um e o mesmo livro, 1984, Editorial Presença

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O dia seguinte

O sermos periféricos terá sido um fator positivo na defesa da pandemia; basta ver a sua cartografia na Europa para concluirmos que o "estar longe" foi um benefício. Já no que diz respeito ao dia seguinte, a periferia não será assim tão benéfica. Como começar? Por onde começar? As respostas têm sido tímidas. Pelo menos, há uma pequena economia de subsistência em que subsistir é urgente.

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A austeridade será social e ecológica. Menos beijos e abraços, mais gratidão. Menos praia e mais campo. Mais férias repartidas. Menos megas de tudo. Será?

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Seremos mais estranhos. Perigosamente.

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A máscara não poderá ser um amuleto.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Desconfi(n)ar

Agendar o desconfinamento será mais complexo e menos politicamento consensual do que ter determinado o confinamento. Para quem o confinamento é uma ascese ou um trunfo, bem pode continuar; para quem é uma porta sem futuro, há que o preparar sem medos, ainda que com riscos. Do que se lê, parece não haver na Europa apenas um modelo de desconfinamento. O nosso começou a ser anunciado, talvez menos ousado do que o da Dinamarca ou da Áustria. Seja qual for, no tempo político que aí vier, haverá os que o acharão ter sido timorato ou, sendo os mesmos, o acharão oportunista e precipitado: dependerá dos resultados.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Diário

A China produz anualmente 80000 toneladas de paracetamol, 60% da produção mundial.

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Hoje, 8 de abril: óbitos, mais10,1%, infetados, mais 5,6%. Parece-me óbvio que o aumento da percentagem dos óbitos continue a ser superior ao aumento da respeitante aos infectados.

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Em França, 31,3% (3237) dos óbitos reportam-se a pessoas que viviam em lares, segundo os elementos de ontem. Em Portugal?

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Quanto mais se sabe sobre a morte do cidadão ucraniano ocorrida no Aeroporto Humberto Delgado, mais o SEF se afunda. Talvez se justificasse uma sindicância global ao Serviço, com garantia de confidencialidade para todos os emigrantes que para ela viessem a contribuir.



terça-feira, 7 de abril de 2020

O pandemónio das máscaras

Não há máscaras para todos, nem as haverá tão cedo.
Em matéria do uso de máscaras, somos iletrados.
(No supermercado, ontem. Mãe e filha, presumo, com máscaras. A uma distância de 6 a 7 metros uma da outra, a primeira, afastando a máscara, grita para a segunda, Que fruta queres?).
O distanciamento social, o confinamento e a higiene têm sido respostas com resultados.
Mesmo que houvesse máscaras para todos, aquelas medidas continuariam a ser as respostas de primeira linha.
Que um especialista venha dizer, com ampla publicidade, que se deveria utilizar máscaras quando se vai ao supermercado, é estar numa realidade outra.
A atividade da Direção-Geral de Saúde não pode ser minada por uma questão que neste momento é lateral no combate à pandemia. 
As máscaras, isso sim, são fundamentais para quem continua a trabalhar para que possa haver, pelo menos, uma aparência de vida.
Segundo o Le Monde, 88% dos franceses considera que o confinamento é o único meio eficaz para combater a pandemia.

domingo, 5 de abril de 2020

Medo

No final de 1576, D. Sebastião e Filipe II encontraram-se em Guadalupe. Do que ficou registado entre outros episódios, D. Sebastião teria perguntado ao Duque de Alba de que cor era o medo; este ter-lhe-ia respondido De color de la prudencia.

Recolhido em D. Sebastião, de Maria Augusta Lima Cruz, Círculo de Leitores

sábado, 4 de abril de 2020

Especial obrigação

O primeiro-ministro esclareceu, prontamente, que haveria presos que não beneficiariam de qualquer libertação ou saída antecipada: os que tinham a especial obrigação de não terem cometido os crimes pelos quais foram condenados. Uma especial obrigação cai mais para o lado da moral do que para o lado do direito criminal. É um conceito difuso, com uma dimensão perigosamente elástica. Para o que esse perigo representa, remeto-vos para esta posta de 7 de julho de 2017.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Inconstitucional

A exclusão de qualquer preso de um perdão ou de outra medida de clemência, apenas pela única razão de ser ou ter sido político, juiz, procurador, advogado ou polícia, seria uma discriminação inconstitucional. O Estado de Direito, esse, ainda não entrou de quarentena, apesar da emergência.