sexta-feira, 17 de junho de 2011

Declaração

Eu, abaixo assinado, declaro por minha honra que nunca fui apaniguado, por ação ou por omissão, do regime asfixiante que assolou o país entre 12 de Março de 2005 e 5 de Junho de 2011.
A bem da Nação.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Estórias sem ADN

Os olhos estavam escondidos em covas fundas. De quem chorara muito, dir-se-ia. Numa voz indiferente, alheia ao mundo, foi contando a sua verdade. Tinha assim um nome que parecia estrangeiro, não se recordava. Conheceram-se na praia, uma vez. Nunca mais o viu, talvez mesmo não o reconhecesse. Estaria de passagem, era provável. A avó lamentava-se até às lágrimas, uma filha desgraçada. Não ficou às mãos do marido por que ela, a mãe, se tinha interposto. O que lhe iria custar, uma criança. Senhor doutor, arranque-lhe a verdade. Por amor de Deus. Soubesse ela que num tribunal a verdade é tão insondável quanto o são os desígnios de Deus…

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Conduta judiciária

Há já uns anos, estive no Centro de Estudos Judiciários a falar sobre ética e deontologia. Foi manifesto que era assunto que não interessava aos auditores. Compreendi a razão desse desinteresse quando fui confrontado com a ideia peregrina de que a deontologia de um magistrado está nos códigos de processo. A ética pública, a deontologia profissional, são objeto de continuado interesse pela OCDE e pelo Conselho da Europa. A credibilidade de um poder público passa por tal exigência. Um código de conduta judiciária seria um bom instrumento de aprendizagem.

O meu protesto

O que se passou no Centro de Estudos Judiciários, só deveria ter como consequência a reprovação de todos os auditores e a demissão dos seus responsáveis. O resto é uma lenga-lenga irresponsável.

Vox populi

O que o povo diz, para que saiba Vossa Excelência, é que o menor António, de 8 meses, é a cara chapada do pai. A avaliação social de proximidade teve na GNR uma prestação inestimável. Hoje, a realidade oculta-se em imensos relatórios que se auto-reproduzem sem pudor. Provavelmente, a voz do povo já não é a voz de Deus. Ou vice-versa.

Dez de treta

Afinal, a final já não serão dez. É evidente que nunca poderiam ser dez. Dez não é um número cabalístico, ainda que tivesse sido um dos argumentos da cabala.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Estórias sem ADN

Tinha uns olhos azuis, literariamente celestiais. A voz, pausada, não mentia. Talvez com vinte anos, se me lembro. Ao ser-lhe perguntado sobre quem seria o pai do menino, respondeu que não queria responder. Assim se manteve, em mais duas diligências. A mãe, avó do menino, esclareceu, sem lágrimas, que a filha nada lhe tinha revelado sobre a paternidade. Tudo o que se tentou apurar depois batia nessa barreira de silêncio. O que não disse então, talvez já o tenha dito ao menino grande. Ou talvez não. Os processos acabam com um visto em correição. A vida, quase sempre, continua.

domingo, 12 de junho de 2011

Moralismos

Para a democracia, para a sua didática, não há pior discurso do que aquele que, eivado de política, finge estar para além da política. São discursos que, historicamente, pretendem servir soluções autoritárias mascarados de um moralismo barroco. Ou bacoco. A democracia não precisa de senhores mas de cidadãos.

sábado, 11 de junho de 2011

O teleponto

Há quem ainda não tenha descoberto que o teleponto não faz discursos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ironias

O otimismo, no Dia de Portugal, veio de Christine Lagarde.

Dia de Portugal

Esperava discursos com a dimensão da nossa História; afinal, houve palavras que continuam a sustentar uma intriga.

Outros tempos

No início da minha carreira profissional, como delegado do procurador da República, nesse tão perto Fevereiro de 1973, fui confrontado com uma realidade que eu, citadino, desconhecia. No dia a dia, ouvindo ofendidos, testemunhas ou arguidos, constatava que, ou não sabiam ler e escrever, ou eram filhos de pais incógnitos. E, não poucas vezes, uma coisa e a outra.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A diferença

No Dicionário da Língua Portuguesa, 2011, encontro o termo mulher-homem significando mulher de aspeto varonil e modos geralmente associados ao homem.
Não encontro, porém, o termo homem-mulher.

Uma jurisprudência social

"Julgar inconstitucional, por violação do princípio da igualdade, consagrado no artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, a norma do artigo 26.º, n.º 12, do Código das Expropriações, aprovado pela Lei n.º 168/99, de 18 de Setembro, quando interpretado no sentido de ser indemnizável como solo apto para construção, com valor calculado em função do valor médio das construções existentes ou que seja possível edificar nas parcelas situadas numa área envolvente cujo perímetro exterior se situe a 300 m do limite da parcela expropriada, terreno integrado na RAN com aptidão edificativa segundo os elementos objectivos definidos no n.º 2 do artigo 25.º do mesmo Código."

A insolência

"É mais necessário extinguir a insolência do que um incêndio."

Heraclito de Éfeso, filósofo pré-socrático

Tempos outros

Enquanto houver mulheres que não queiram os pais, haverá filhos sem eles. Por mais ADNs ou por mais persistentes que sejam os magistrados. Creio que esta é a grande liberdade das mulheres. A grande vingança.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A arte de representar

As audiências de julgamento são cada vez mais um espetáculo deprimente. A encenação, que seria de presumir convincente, tornou-se numa farsa de bairro. As boas maneiras, a serenidade, a voz audível e o cumprimento dos horários seriam um bom contributo para a credibilização da justiça.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quer queiram, quer não

A orfandade

Os debates políticos televisivos, ontem, foram tristes. Havia no ar um sentimento difuso de orfandade.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O branqueamento dos discursos

Tão impune como o branqueamento de capitais.

Opinião e saber

“Sócrates – Então, quando os juízes foram justamente persuadidos acerca de assuntos dos quais apenas pode saber aquele que viu e não outro, nesse momento, ao decidir sobre esses assuntos por ouvir dizer e ao adquirir uma opinião verdadeira, ainda que tenham sido corretamente persuadidos, tomaram a sua decisão, sem saber se na realidade julgaram bem, não?
Teeteto – Certamente.
Sócrates – Amigo, se a opinião verdadeira e o saber fossem o mesmo, nem sequer o juiz mais competente poderia emitir uma opinião correta sem saber. E, contudo, neste momento cada uma delas parece ser diferente.”

Platão, Teeteto

The day after

Gostaria de ter escrito aquele discurso de despedida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Reflexão III

Um discurso de vinganças não pode sustentar um país. Nem um voto.