terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Leituras


“Para ele a Vida cristalizava no próprio momento em que as leis eram publicadas e ficava prisioneira desse sistema lógico, até à aparição de outras leis. A realidade, o quotidiano eram para ele ingredientes pobres: - mero pedaço de barro em cujas dobras moldava as suas lucubrações. Cada sentença, cada despacho seus eram acima de tudo um pretexto para brilhar, para se valorizar. Enquanto o médico actua sobre o doente com vista à sua cura, o Prado utilizava o concreto para realmente o desfigurar, espartilhando-o em abstracções sucessivas, até o descarnar, amputando-o do cerne da relação dialéctica.”

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Erro judiciário 8

A wrongfully convicted man who spent 20 years in prison for rape and battery had a happy final day in court today as Lake County officially dropped the last charge in a case that dates back to 1986.

Chicago Tribune

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Leituras *


* O Centro de Estudos Judiciários deu início a um novo curso de formação de magistrados. Estas são algumas leituras que ouso sugerir: dão conhecimentos, ensinam a vida e aperfeiçoam a redação.

Uma justiça com memória

Víctor Jara foi assassinado em 1973, vítima do golpe militar de Augusto Pinochet. A justiça chilena continua no encalço dos assassinos. Há limites morais para a prescrição do procedimento criminal.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Associação criminosa

O crime de associação criminosa está previsto no artigo 299º do Código Penal. Relativamente a este tipo de crime, o insucesso das acusações do Ministério Público tem sido de uma frequência preocupante. Do ponto de vista policial, é mediático anunciar que se se investiga ou investigou um crime de associação criminosa. O Ministério Público, porém, não pode estar condicionado por tal antecipação. Trata-se de um crime complexo, com uma tradução jurídica que está muito para além da leitura comum que se possa fazer da expressão. No acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 27 de maio de 2010, de que foi relator o Conselheiro Raúl Borges, faz-se um levantamento doutrinário e jurisprudencial sobre o tema, a justificar uma leitura.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Confissão, condenação e ADN

Vale a pena ler, no  NYTimes, o que se passou com Joseph A. Buffey. Estão em causa os limites da confissão e a importância da guarda e acesso às bases de dados de ADN. Num momento em que, em Portugal, se quer regredir em matéria de confissão e parecem parcos os passos dados em matéria de ADN, justifica-se voltar a estes temas.

Humberto de Almeida


Humberto de Almeida (1896-1971), engenheiro, professor universitário, investigador e militar, integrou o Corpo Expedicionário Português durante a Primeira Guerra Mundial. Sobre a participação nesse conflito de dimensões até então impensáveis, escreveu o livro Memórias de um Combatente na França. Possuo um exemplar com a dedicatória manuscrita Ao A. Ribeiro, bom soldado da Flandres, of.ce o auctor  Humberto Almeida. O A. Ribeiro é o meu avô paterno Artur. Republicano convicto, o meu avô Artur trouxe da guerra marcas indeléveis na saúde. Tinha orgulho no emblema de Antigo Combatente que sempre trazia na lapela.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Discurso presidencial, outro



“Num discurso, mensagem do Ano Novo, o Tomás da Gertrudes declarou que as explorações cósmicas eram feitos insignificantes, uma vez que o homem nunca poderá ir além do Sistema Solar… Os Descobrimentos Marítimos, esses sim, foram à medida do Homem. E, depois, esbanjar nisso fortunas, quando há tanta fome na Terra…”

Mário Sacramento, Diário, 3 de janeiro de 1968

Discursata*



Ex.mo Sr. Procurador-Geral da República
Ex.mo Sr. Vice-Procurador-Geral da República
Caros Colegas
Minhas Senhoras e Meus Senhores

De Fevereiro de 1973 a Outubro de 2008, que é o meu tempo de vida nestas andanças, tenho vivido o Ministério Público como uma causa de obediência à lei em nome dos interesses legítimos, sociais e individuais, dos cidadãos.
Se é verdade que a lei tem mudado, e é natural que isso aconteça, não é menos verdade que a realidade que subjaz à actuação do Ministério Público tem também sofrido significativas transformações.
Curiosamente, ou talvez não, o Ministério Público, na sua essência organizativa e na sua estratégia funcional, tem mantido um mesmo perfil, sobretudo de magistratura reactiva.
As exigências que hoje são feitas ao Ministério Público não são compatíveis com esse perfil.
Sob um contínuo escrutínio dos cidadãos, com um tempo judiciário cada vez mais próximo do tempo quotidiano, o que importa é encontrar as dinâmicas que possibilitem respostas adequadas e socialmente perceptíveis.
Tanto quanto uma magistratura das leis, devemos ser uma magistratura dos factos.
Tendo a direcção do inquérito e a promoção criminal no cerne da sua vocação, o Ministério Público precisa de valorizar esse trabalho, integrando nele magistrados mais experientes e qualificados.
É nos Departamentos de Investigação e Acção Penal, é nos Tribunais de Primeira Instância , que o Ministério Público tem o principal embate, talvez o definitivo, que conduz a uma justiça mais pronta e mais eficaz.
A coesão destas estruturas, geograficamente dispersas e sem guias que tornem homogéneos os procedimentos, é precária, traduzindo, muitas vezes, uma sensação de incerteza na aplicação do direito e de incompreensão na percepção dos factos.
Neste contexto, penso que é urgente para o Ministério Público a revisão do seu próprio estatuto e que é por aí que passa o seu futuro.
Não creio, e digo-o convictamente, que a culpa seja dos outros, que a culpa seja dos códigos e das leis ou das suas revisões mais ou menos compulsivas.
O reforço dos poderes de orientação e gestão do procurador-geral da República, permitindo-lhe criar mecanismos que sejam, a um tempo, de controlo, de responsabilização e de estímulo, torna-se imperioso.
Como se torna imperioso uma progressão na carreira que não seja vertical, afastando os mais experientes e competentes de uma realidade criminal cada vez mais difusa, imperceptível e danosa.
Uma realidade criminal que nos escapa, para a qual não temos resposta, talvez não tanto pela falta de meios, mas pela falta de propósitos.
Não podemos tornar a corrupção, e todos os crimes a ela associados, ou o terrorismo, ou o tráfico de pessoas, retóricas que se esgotam no seu próprio discurso.
São fenómenos complexos, que estão para além do acaso de cada caso, e que não serão alheios, por exemplo, à crise financeira global que vivemos.
São fenómenos que exigem informação, análise e iniciativa.
São fenómenos que exigem a coordenação das diversas estruturas que os regulam, previnem e investigam.
A compartimentação da regulação, da prevenção e da investigação tem sido, continua a ser, absolutamente irresponsável, não permitindo a actuação global que é exigida.
A resposta a estas inquietações passa por um Ministério Público mais coeso e com maior sentido de iniciativa e de direcção.

Ex. Sr. Procurador-Geral da República

Sou um militante do Ministério Público com as quotas em dia.
Permiti-me fazer as anteriores considerações neste acto, por isso mesmo.
A boa reflexão é sempre uma reflexão em voz alta, uma reflexão partilhada, uma reflexão sem medo.
Pensar é o acto mais violento que há, escreveu Agustina Bessa-Luís.
Mas não será razão para nos remetermos ao silêncio das conveniências.
O que posso prometer a V. Ex. é lealdade, é solidariedade, é responsabilidade, é sentido crítico.
O que posso prometer ao Ministério Pública é empenho.
O serviço de inspecções do Ministério Público tem tido uma matriz redutora: a da avaliação funcional dos magistrados que ocupam os dois primeiros patamares da hierarquia.
É pouco para avaliar o trabalho integrado do Ministério Público.
É pouco para fornecer ao procurador-geral da República uma visão exaustiva do desempenho de uma magistratura tão complexa que se ocupa, por ano, com centenas de milhares de situações.
Não só a avaliação das condições mas também a avaliação dos métodos, das opções, do relacionamento com o exterior, devem estar no horizonte das tarefas dos serviços de inspecção.
Vivemos um momento de transição sem podermos ter muitas certezas sobre o modo e o modelo do Ministério Público de amanhã.
Mas espero bem que sejam o melhor que soubermos fazer dele.
Não haverá boas mudanças, não haverá melhorias significativas no desempenho do Ministério Público, se cada um de nós não for o obreiro dessas mudanças e dessas melhorias.
Por último, não poderia deixar de agradecer a presença de todos.
No entanto, gostaria de pensar que não estão por mim mas por uma causa.
Muito obrigado.

Palácio de Palmela, 20 de Outubro de 2008

*Quando iniciei funções, por uma segunda vez, como Inspetor do Ministério Público.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013

Seria eticamente impensável que Miguel Relvas continuasse a exercer funções ministeriais e que o ministro Nuno Crato, face à evidência, ainda não se tivesse demitido. O Ministério Público, por sua vez, não instaurou qualquer procedimento criminal, o que, não querendo dizer nada, não pode justificar o futuro. Desejo a todos, sobretudo aos que não me lêem, as felicidades possíveis. O destino de cada um é sempre o destino de todos. Não o devemos esquecer.