domingo, 21 de agosto de 2011

Segurança 4

No organigrama do Sistema de Segurança Nacional que parece ter o apadrinhamento do atual Governo, verifica-se que, no âmbito da Segurança Interna, cabem a GNR, a PSP e o SEF, organismos tutelados pelo Ministério da Administração Interna que detêm, há mais de dez anos, a competência da investigação criminal em cerca de 90% dos inquéritos registados. Excluída deste organigrama está a PJ, entidade a quem cabe a prevenção, deteção e investigação de crimes que, não tendo tal expressão estatística, têm expressivo significado no âmbito da Segurança Nacional. Excluída a PJ, excluído está, também, o Ministério da Justiça.

Segurança 3


Publicado no Expresso de 30/7/2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Gato-sapato

O TGV é um assunto com uma dimensão política, quer interna quer externa, que exige um rigoroso sentido de Estado. Ser oposição e fazer dele gato-sapato pode ser ignorância; sendo governo é, com certeza, leviandade.

Sem esperança

Não é possível governar depois de se ter matado a esperança.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Desperdício

Durante anos, e até à passagem do Diário da República e do Diário da Assembleia da República à versão apenas eletrónica, juízes e procuradores tinham direito à sua assinatura gratuita. Primeiro, dobrados e cintados com tiras de papel, depois, acomodados em invólucros plastificados, recebiam-nos, pelo correio, geralmente nos locais de trabalho. Alguns juízes e procuradores assinavam todas as Séries, acumulando quilos de papel, não sei se de informação. Um dia, entrando num gabinete que me tinha sido atribuído para realizar um serviço, encontrei-o com as paredes forradas de Diários da República e da Assembleia da República por desenfardar. Seriam alguns milhares, sem exagero. Surpreendido, quis saber a razão de tanto papel da Imprensa Nacional, parecendo ali abandonado. A explicação era simples. O magistrado que ocupara aquele gabinete por largos anos, tinha, havia um tempo, mudado de comarca, e ainda não lhe tinha dado destino.

domingo, 14 de agosto de 2011

Desregulação

A desregulação da ética foi-se construindo antes de 5 de junho; as da economia e da solidariedade, depois.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ministério da Justiça

Esperava pelas primeiras decisões do Ministério da Justiça para descobrir o sentido da política a desenvolver nesta área. Do Programa de Governo para a Justiça, com efeito, não é possível deduzi-lo. Trata-se de uma amálgama de propósitos destinada a agradar a Gregos e Troianos. Curiosamente, no entanto, é um Programa em que a classe profissional mais numerosa do Ministério, a dos oficiais de justiça, é esquecida.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mais crimes

Quando não se sabe o que fazer, criminaliza-se. Como se o problema da justiça penal fosse a míngua de crimes.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SIRP

O Secretário-Geral do Sistema de Informações da República solicitou à Procuradoria-Geral da República que fosse instaurado um inquérito criminal sobre alegadas fugas de informação. A eficácia da investigação criminal no que concerne a fugas, nomeadamente no âmbito do segredo de justiça, é por demais conhecida. Um sistema de informações, ou é capaz de detetar as suas próprias vulnerabilidades, ou precisa de se remodelar. Um inquérito criminal apenas servirá para que tudo continue na mesma. Para que todos continuem na mesma.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SGSSI

A criação do Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna foi um equívoco teórico e um descuido governativo. Pensar que um super-polícia, assim batizado em pasquinês, poderia coordenar as tensões que os anos refinaram até ao absurdo, adiou a solução de um problema que continua a ser caro ao país e prejudicial à sua segurança.

domingo, 7 de agosto de 2011

Segurança 2

Não se pode ignorar a complexidade, também ela criminal, da sociedade em que vivemos. Num mundo em que as ameaças se tornaram cada vez mais difusas e imprevisíveis, a antecipação criminal ganha relevância na estrutura da segurança. Não será por acaso que no artigo 2º, nº 1, da Lei Orgânica da Polícia Judiciária, a prevenção e a deteção dos crimes antecedem a investigação. Porém, é óbvio que a prevenção e a deteção não são compatíveis com as atuais práticas de coordenação, partilha e comunicação.

Agosto de 2011

Irão beber o veneno da sua própria estratégia. Irão saber que a mentira, não sendo justa, não compensa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

BPN

Continua a ser um caso de polícia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um outro corregedor

Nunca conheci juiz que escrevesse tão rapidamente, numa letra redonda que ocupava o espaço entre as linhas da folha de papel. A tinta permanente. Peregrinava pelas comarcas do círculo judicial em automóvel de aluguer. Rara foi a vez em que leu o acórdão em dia diferente daquele em que se realizava o julgamento. Por uma vez ou outra, viu-o adormecer, após o almoço, durante a audiência. Havia, então, um programa radiofónico dos Parodiantes de Lisboa que era transmitido pela manhã e lhe servia de companhia nas viagens. Em alguns desses programas, parodiavam-se ditados populares. Um dia, chegou ao tribunal com uma disposição, ele que era bem-disposto, imprevisível. E ria, repetindo o que ouvira no programa dos Parodiantes de Lisboa: à menina que é borracho ponho eu a mão por baixo. Foi há mais de vinte e cinco anos.

Texto fundador

No Boletim do Ministério da Justiça nº 333, de fevereiro de 1984, o Professor J. Machado Cruz publicou um texto com o título “Possibilidades atuais da investigação biológica da filiação e sua efetivação em Portugal”. Numa linguagem didática, introduziu os juristas numa dimensão científica que até então lhes escapava, não deixando de fazer as correções necessárias a algumas considerações desadequadas que sustentavam o assento nº 4/83. Trago-o à colação por ser um texto fundador da investigação biológica da paternidade em Portugal. O Professor J. Machado Cruz era então Presidente da Direção do Instituto de Antropologia Dr. Mendes Corrêa, entidade pioneira nesta matéria.

sábado, 30 de julho de 2011

Segurança

As questões de segurança, aqui tomada no seu sentido mais amplo, continuam, sempre por más razões, na ordem do dia. Não havendo, nesta matéria, ideias e práticas que sejam um património comum da expressão política e da integridade do Estado, o espetáculo que se dá é, a um tempo, risível e inquietante.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Deiar

Foi um dos juízes mais emproados que conheci. Tinha da cultura uma visão jurisprudencial. Um dia, li um seu despacho em que dizia, literalmente, Deia-se vista ao MP. O MP é a versão económica de Ministério Público. Pensei ser um lapso. Não o era, era uma convicção. Foi a conclusão a que cheguei depois de ter lido a mesma frase em muitos outros despachos.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O corregedor

Era alto, encorpado, e tinha uma voz a condizer. Conheci-o quando exerci funções na minha primeira comarca. Ali se deslocava, uma ou duas vezes por mês, para presidir ao tribunal coletivo. Tinha a autoridade que o Estado de então lhe emprestava. Para os funcionários, dia de coletivo era dia de apertarem os colarinhos e não trazerem a gravata descaída. As audiências, marcadas para as 9 horas e 30 minutos, começavam a essa hora. Era a essa hora que, imperial, entrava na sala. Num dia de Verão em que o julgamento concitou muito público, mandou evacuar a sala por causa do cheiro de que estava empestada, sem deixar de aconselhar os presentes a tomarem banho. Muitos anos passados, já jubilado, vi-o, em romaria, dirigir-se para um comício eleitoral do CDS.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Perda de soberania

Perda de soberania é isto.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Antes de mais

É assim, antes de mais, que muitos magistrados iniciam os seus despachos. É um tique que não vem nos códigos, mas diz bem da formação por osmose. Tentando descobrir donde vem ele, o tique, fui levado à conclusão que o magistrado formador já o tinha. Passa do formador para o formando, antes de mais. Não se exige a um magistrado que seja um estilista, o que não significa, porém, que deva tornar-se num estiloso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Parentesco outro

A adoção não é um direito de casais. Em abril último, 385 pessoas vivendo sozinhas estavam inscritas nas listas nacionais de candidatos a adotantes. Este número correspondia já a um quinto do número total dos processos existentes. É uma nova realidade que não pode ser dissociada daquela outra em que um número crescente de mulheres quer assumir a maternidade sem a ter de compartilhar com uma paternidade.

domingo, 24 de julho de 2011

Feios, porcos e maus

O DN traz uma notícia(?) sobre a doença de um familiar de Sócrates. Os comentários são do mais sórdido que se possa imaginar. Tornaram-se possíveis graças ao caldo de (in)cultura ética que comentadores, jornalistas e políticos que integram a atual maioria fomentaram nos últimos seis anos. São eles que devem ao país um pedido de desculpas.

A prova impossível

Em 21 de junho de 1983, o Supremo Tribunal de Justiça proferiu um assento que é um atestado de desonestidade moral para todas as mulheres.
Aí se decidiu que, na falta de presunção legal de paternidade, cabe ao autor, em acção de investigação, fazer a prova de que a mãe, no período legal da conceção, só com o investigado manteve relações sexuais.
Trocado por miúdos, não bastaria provar que a mãe teve relações sexuais com A no período legal da conceção; necessário se tornaria fazer prova de que não as teve com qualquer outro homem.
Trata-se de uma decisão que, à semelhança de outras respeitantes à investigação de paternidade, dividiu o Tribunal, e onde se fizeram ouvir vozes que anunciavam a necessidade de uma justiça sem preconceitos.
Não pode deixar de ser anotada a afirmação do Conselheiro Lima Cluny, que votou contra a decisão, de que a mãe do investigante goza de presunção natural de honestidade, no sentido de que não é mulher de mais de um homem simultaneamente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vaticínio

Também nós, mais cedo ou mais tarde, teremos um patriótico News of the World.

Oslo

Há uns anos, em período eleitoral, estive em Oslo alguns dias. Fiquei admirado com uma campanha suave, onde a tolerância identitária parecia ser o denomidador comum. Ao percorrer, utilizando o elétrico, as zonas periféricas, essa perceção inicial desvaneceu-se, ficando-me uma sensação de que havia algo de imponderável. O imponderável aconteceu, hoje.