sexta-feira, 22 de março de 2013

Leituras

 
Mas eu não sou político, sou um tipo de ideias gerais. Não sou eu que as procuro, elas é que vêm ter comigo. Abro-lhes a porta, elas entram – o guarda abriu a porta, eu saí. Não este: um outro – não falei ainda disso? foi de outra vez. A prisão é uma carreira, não se atinge logo de uma vez a perfeição, agora és um homem perfeito. Decerto, a morte, oh, não armo à coragem. Saber que nunca mais, que daqui a um instante posso deixar uma palavra em meio. Mas escrevo sempre, quero dizer, falo. Revelar definitiva e clara a confusão de uma vida. Não armo à coragem, e todavia. Uma vida não tem termo, dizia-se aqui há tempos – tem. Ou seria bom que tivesse. Com princípio, meio e fim.
- Como o pensas? Tu? – pergunta-me Marta, aérea e branca,
tu que soubeste apenas a palavra de destruição?
- Deitar abaixo é fácil! – berrou-me o juiz
um tipo rude, inamovível como uma rocha, gravado a textos sagrados para toda a eternidade. Mas nada é eterno, ó bruto! que é que lhe hei-de fazer?
- Que é que o senhor quer fazer? Deitar abaixo é fácil. Estamos aqui todos para conhecer o seu programa. (pag. 41)

Explicação: Ao longo dos anos, do que leio em romances, contos, narrativas e outras invenções, tenho recolhido textos que gostaria de utilizar num trabalho sempre adiado com o título "A ficção na Justiça".

terça-feira, 19 de março de 2013

Da pesada herança

Numa notícia discreta do DN, fica a saber-se que “uma delegação de empresários e entidades oficiais do México veio estudar o sector de energias limpas português”. Para Miguel Gomes da Costa, presidente da Câmara de Comércio Luso-Mexicana, trata-se de “um acontecimento histórico” nas relações entre os dois países. Justificação para o acontecimento dá-a o próprio Gomes da Costa ao esclarecer que “Portugal está à frente do México nestas energias renováveis, está numa posição privilegiada em relação a muitos países europeus, pelos investimentos feitos nos últimos anos na energia solar térmica, fotovoltaica e eólica, além da experiência hídrica”.

Leituras

Quando lemos História, não nas edições expurgadas para alunos mas nos escritos das autoridades da época, ficamos enjoados; não com os crimes cometidos pelos maus, mas com os castigos impostos pelos bons; diga-se de passagem que aquilo que embrutece uma sociedade, mais do que qualquer actividade criminosa, são as punições. (pag. 49)

segunda-feira, 18 de março de 2013

A defesa

Faz hoje cinquenta anos que o Supremo Tribunal de Justiça americano proferiu, no caso Gideon v. Wainwright, uma decisão histórica: a obrigação do Estado providenciar a defesa por um advogado para quem não tivesse capacidade para o nomear.

Leituras


A partir do momento em que o racismo se torna um tema relevante e suscitador de debates e perspectivas divergentes, torna-se necessário interrogar a forma como os actores sociais percepcionam algumas instituições normativas da sociedade e a relação destas com o fenómeno racismo. A este propósito, analisou-se a percepção dos actores sobre a existência de racismos por parte das forças policiais ou por parte da actuação dos magistrados em situação de julgamento.
Segundo M. Wieviorka (1992), o racismo policial resulta da confluência de factores diversos: uns de carácter estrutural, ligados ao modo de funcionamento e à cultura da polícia (instituição normativa), e outros de ordem mais conjuntural, determinados pela situação social, pelas instituições e pelo sistema político. Nesta perspectiva, os polícias não são apenas agentes que asseguram a “normalidade” do funcionamento de uma organização social que os transcende. Assim, e apesar da burocracia e das regras administrativas que limitam o seu trabalho, os polícias são também actores individuais e colectivos, que exprimem a sua subjectividade, não deixando de dispor de um certo grau de liberdade que permite a redefinição das suas práticas. A cultura da instituição policial integra um conjunto de normas e comportamentos estruturados quer pela identidade profissional, e métodos de intervenção, quer pelas condições institucionais do trabalho policial. Essa cultura parte de uma base de pressupostos mais ou menos constantes ao longo do tempo: o sentimento de representarem o último pilar numa sociedade em desestruturação, e o dever de constituírem uma espécie de paliativo face às disfunções das instituições sociais, assentando a sua intervenção num universo simbólico-ideológico estruturado com base num sistema classificatório de alguns grupos sociais em categorias que estão sob contínua “suspeição” – as “categorias marginais” – entre as quais se destaca a dos “ciganos”. Esta tendência para a categorização de grupos raciais e/ou étnicos como marginais e perigosos decorre não só das condicionantes estruturais mas também das conjunturais, que remetem para as tensões sociais que atravessam transversalmente as sociedades em dado momento e que têm incidências na própria intervenção policial. (pags. 195/196)

domingo, 17 de março de 2013

Leituras


É que, sempre que alguém era preso, acrescentavam-se as denúncias e novos processos se abriam e outras prisões se seguiam. E se, nos primeiros tempos, apenas foram presos membros da família de António da costa e Brites da Costa, eles estavam ligados a outras famílias, que logo começaram também a ser incomodadas. Instalou-se, assim, um ambiente de medo, denúncias e suspeição e nenhum cristão-novo de Carção poderia dormir descansado. E, então, antes que a Inquisição viesse prendê-los, alguns tomaram a iniciativa de irem apresentar-se ao tribunal, confessar que tiveram práticas judaicas, pedir perdão dessas faltas e prometer não as repetir. Certamente que isso seria levado em conta e o castigo sempre seria menor.
E começou assim uma verdadeira procissão de gente de Carção para Coimbra a apresentar-se na Mesa da Inquisição. (pag. 44)

sábado, 16 de março de 2013

Demita(m)-se

Demitir-se tornou-se num verbo reflexo imperativo.

Leituras

O único escravo que manteve-se firme em suas argumentações, que não aceitou a acusação do furto e que não acusou os outros réus recebeu condenação à morte. É difícil discutir aqui a participação de Maximiano no crime ou não, mas é inegável que ele pagou caro por ousar argumentar contra aqueles que o acusavam. Talvez, aceitando a acusação do furto, de que realmente planejou isto para livrar-se da condição de escravo, que realmente assassinou a Maria Cândida, sua sorte teria sido diferente. Mas não. Frente a um público sedento para demonstrar a perversidade e incapacidade dos negros de conviver na sociedade civilizada, ele ousou posicionar-se diante disto. Citando Cesar Mucio Silva vemos que Maximiano ousou “perante um promotor branco, um delegado branco, testemunhas em sua maioria brancas, escrevente branco, enfim, perante um universo com poder totalmente nas mãos dos brancos, de leis brancas”, afirmar sua inocência, negar a culpa que eles queriam que ele aceitasse que tinha. (pag. 231)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Iraque

O Iraque foi invadido há 10 anos. Mais do que um erro, foi uma mentira. Não trouxe democracia nem prosperidade ao povo iraquiano. Pelo contrário, legitimou o terror quotidiano em que hoje vivem. A responsabilidade moral de Durão Barroso continua sem ser julgada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Leituras

“Em nossa casa discutia-se toda a espécie de assuntos. Os meus irmãos mais velhos liam os jornais diários, incluindo os folhetins. Eu ouvia-os falar acerca de damas veladas, segredos terríveis e paixões fatais. Até o Pai falava, às vezes, de homens insensatos que se apaixonavam por mulheres sem moral e que, se não podiam satisfazer os seus desejos, pegavam num revólver e acabavam com a vida. Mas a história que me fascinava mais era a dum homem a quem tinham falado numa prostituta dum país distante que exigia quatrocentos gulden pelos seus favores. O homem ia ter com ela e ela preparava um sofá dourado para ele. Então ele sentava-se ao pé dela, nu, e ela estava também nua. Mas, de súbito, as franjas do xaile de oração do homem erguiam-se sozinhas e fustigavam-lhe o rosto. No fim, ambos eles se arrependiam. Ele casava com ela e o sofá do pecado tornava-se num leito conjugal santificado pelo casamento.” (pag. 81)

segunda-feira, 11 de março de 2013

(A)normalidades

Hoje, no JN, Valente Oliveira, presidente do Conselho Económico Social, diz que "estamos a viver uma tragédia social". É neste contexto que ainda há instituições que continuam a fingir uma normalidade que já nada tem a ver com o país.

Corrigindo: a afirmação é de Silva Peneda. Vale a pena ler a totalidade das suas declarações na página 5. 

sábado, 9 de março de 2013

O silêncio

Em democracia, o silêncio não se escrutina nem vai a votos.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O espanto do ADN

aqui dei vários passos em volta do ADN. Depois de tantos artigos, conferências e quezílias que a base dados de perfis de ADN tem suscitado, volto ao tema apenas para constatar que o ADN tem sido muito mais relevante na investigação cavalar do que na investigação criminal.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Leituras


“Como pessoa era um encanto, apesar do seu lado monstruoso.
- Lado monstruoso? – disse Lyon.
- É um refinado mentiroso.
O pincel de Lyon imobilizou-se de repente, e porque a fórmula o tinha espantado, repetiu:
- Um refinado mentiroso?
- Foi muita sorte sua não tê-lo notado.
- Bem, confesso que lhe notei um sabor romântico.
- Oh! Nem sempre é romântico. Tanto mente sobre as horas como mente sobre o nome do seu chapeleiro. Parece que há pessoas assim.
- Ora! Belos trastes são – declarou Lyon com a voz um pouco trémula, por avaliar aquilo em que Everina Brant se tinha metido.
- Oh! Nem sempre – disse o ancião. – Ele nada tem de um indivíduo traste. Não há nele maldade nem má intenção; não rouba, nem trapaceia, nem joga, nem bebe; é muito simpático… tem muito apego à sua mulher, é extremoso para a sua filha. Só não é capaz de uma resposta exacta.” (pags. 55/56)
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

A intriga


Ontem, 5 de março, Cândida Almeida, ainda diretora do DCIAP, subscreveu uma informação dando notícia de que, no âmbito do caso BPN, tinha sido deduzida uma acusação contra cinco arguidos, imputando-lhes crimes de burla qualificada, abuso de confiança e fraude fiscal.
Hoje, o jornal Público encima a primeira página com aquilo que presumo ser uma crítica à atuação do DCIAP e de que teria tido conhecimento por portas travessas: Nova acusação do BPN só foi feita mais de um ano depois de relatório da PJ.
Este facto foi confirmado ao jornal por duas fontes da PJ que estranham o atraso da acusação.
Um relatório é apenas um relatório.
Houve relatórios com propostas de acusação que deram lugar a verdadeiros fiascos judiciais.
Entre um relatório e uma acusação o Ministério Público pode entender realizar outras diligências.
Um relatório com proposta de acusação não vincula o Ministério Público.
O que vincula o Ministério Público é a prova recolhida e é a essa que é preciso dar particular atenção.
As relações funcionais entre o DCIAP e a PJ não teriam sido fáceis.
Que sob a cobardia do anonimato se ensaiem vinganças inglórias é que a ética da investigação não pode justificar.

terça-feira, 5 de março de 2013

Leituras



“Tais interrogatórios eram em tudo extraordinários: longas e prolixas dissertações inquisitoriais sobre a prática da sodomia, entremeadas de breves falas do réu negativas dos factos ou da própria validez das questões.” (pag. 335)

Conferência

O acesso à justiça numa era pós-estatal
António Manuel Hespanha (Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa)
7 de março de 2013, 15h00, CES-Lisboa, Picoas Plaza, Rua do Viriato, 13, Lj. 117/118

Dia Internacional das Mulheres


segunda-feira, 4 de março de 2013

Leituras



“O escravo era considerado, simultaneamente, um bem e uma pessoa. Esta dupla natureza tinha como consequência que cada um dos papéis colocava limites à realização do outro, ou seja, o seu valor como património do dono amputava-o de grande parte das prerrogativas próprias dos outros seres humanos, assim como a sua condição humana colocava também algumas limitações ao poder do senhor. Nada, no entanto, que fosse difícil de aceitar pelas pessoas da época, tal como hoje se aceita geralmente que um trabalhador assalariado seja tido pelos empregadores simultaneamente como pessoa e como factor de produção, com as inevitáveis consequências para as suas condições de vida.” (pags. 291/292)

domingo, 3 de março de 2013

Leituras



"De noite os nomes resistem. Por isso inventamos sombras."  (Pag. 247)

sábado, 2 de março de 2013

2 de março

Na rua, um povo estroikamente indignado.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cova da Beira

Foi mais um caso que sustentou ignomínias durante anos. É mais uma absolvição que humilha a investigação. Talvez isso seja secundário. Talvez o verdadeiro objetivo tivesse sido atingido. A última palavra pertence aos tribunais, o que é, apesar de tudo, uma garantia. Mas dificilmente a última palavra reparará os danos indeléveis.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013