A minha filha mais velha não votou; vive lá fora. Na noite de domingo, dei comigo a contabilizar as pessoas que sei que passaram a viver lá fora, nos últimos dois anos, e que contribuíram para a abstenção. Têm à volta de trinta anos, estão pelo mundo, e são mais do que os dedos das duas mãos. É a abstenção que alguns quiseram.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Justiça do acaso
"O Tribunal Administrativo aceitou a providência cautelar interposta pelo Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública para impedir o aumento do horário de trabalho para as 40 horas, mas recusou a da Federação Sindical da Administração Pública."
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Leituras
Avenida 5
de Outubro
O nascimento da república. O meu avô está lá. De pé
ao cimo da avenida. Os olhos abertos para o futuro. Está de pé e treme no lado
ocidental da barricada, construída por ele (por todos nós) com bancos
arrancados da rua. Cai-lhe m chapéu para a testa ancestral. Cai-lhe um bigode
para os lábios históricos. Ao fundo da espingarda começam os seus olhos.
Graves, cor de maçã. Em Trieste, ao mesmo tempo, sem nada saber, James Joyce
escreve «Dubliners», num pequeno café, cuja primeira edição há-de ser queimada
por um desconhecido.
O meu avô está triste porque dali não pode ver o
Tejo (minha avó engoliu o Tejo). Mas Novélia dobrou agora a esquina. Vem aí.
Desculpe, avô. Novélia: um vestido vermelho e um guarda-chuva com a cabeça de
um cão na ponta. Um dia hás-de vir comigo avô ouvi-la falar dos ratos que ele
cria e que vêm da Índia em barcos e que lhe sobem os sorrisos. A um rato, o
maior, chama-lhe Vasco da Gama.
(pag. 25)
Leituras
Só uma perversão do espírito pode atribuir
significado a um juízo deste tipo: Platão está ultrapassado, Goethe está
ultrapassado. Tal como se tratasse de modelos Ford e não de personalidades
únicas, irredutíveis, criadoras de verdade e de beleza cujo caminho tem de ser
sempre de novo percorrido por cada homem que ascende à consciência do
verdadeiramente humano, ainda que os não conheça.
(pag. 75)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Da indiferença e da indigência
Esta notícia (1) e esta (2) dão a medida moral da Nação. Entre uma carteira que não é devolvida e um termo de identidade e residência que não é cumprido, a diferença moral não existe. Talvez exista a indigência da cumplicidade.
1. Em 26 de setembro de 2013, o Público noticiou que Lisboa chumbou no teste da carteira e passou a cidade "menos honesta do mundo".
2. No mesmo dia, noticiava que a PSP não consegue notificar Oliveira e Costa para depor em tribunal.
Atualizei em 17 de fevereiro de 2025.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Os outros
Nunca ouvi ninguém dizer que vivia acima dos seus direitos. Quem vive acima dos direitos, obviamente, são os outros; é o que se pode concluir. É este discurso, difuso e interiorizado, que leva à desagregação social, à morte lenta da solidariedade. Mas não haja ilusões: também sustenta um projeto político.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
José Sócrates e o inglês
Não sei se José Sócrates fala e/ou escreve bem ou menos bem o inglês. O que sei é que tem feito pelo inglês o que o futuro exige. A sua intervenção televisiva no domingo passado, ainda que em português, foi gramaticalmente correta e politicamente eficaz.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
A crise
Foi em setembro de 2008 que a crise, a financeira, se abateu pelo mundo. É hoje óbvio que a crise, ainda que vivêssemos abaixo dos nossos sonhos, não deixaria de atingir Portugal. Mesmo sem melhores estradas, ou melhores escolas, ou melhores hospitais, não escaparíamos à voracidade de mecanismos financeiros sem regras e sem moral. O futuro não se constrói mentindo sobre o passado.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
Realidade ou perceção?
Onde está a crise da justiça? Na sua realidade ou na sua perceção? Pedro Magalhães, a propósito do discurso da tomada de posse do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, contabiliza os números e conclui pela realidade.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Segurança Interna
Estabelece o artigo 1º, n. 3, da Lei de Segurança Interna (Lei 53/2008, de 29 de Agosto), que "as medidas previstas na presente lei destinam-se,
em especial, a proteger a vida e a integridade das pessoas, a
paz pública e a ordem democrática, designadamente contra
o terrorismo, a criminalidade violenta ou altamente organizada, a sabotagem e a espionagem, a prevenir e reagir a
acidentes graves ou catástrofes, a defender o ambiente e
a preservar a saúde pública."
No artigo 25º da mesma Lei, estatui-se que a Polícia Judiciária exerce funções de segurança interna, e no artigo 12º que o director nacional da mesma integra o Conselho Superior de Segurança Interna.
É, por isso, estranho que se possa justificar, como o fez a Senhora Ministra da Justiça, a ausência da Polícia Judiciária no Grupo de Reflexão Estratégico em Segurança Interna dado que este Grupo tratará de questões relacionadas com a segurança e a PJ ser "sobretudo uma polícia de investigação criminal."
domingo, 8 de setembro de 2013
Tendência, tentação
C’è un forte contrasto tra il profondo senso di giustizia che tutti, anche i malvagi, ci ritroviamo dentro, e il mondo che ci appare come uno spettacolo di generalizzata ingiustizia. «L’uomo nasce libero, ed è ovunque in catene» (J.J. Rousseau). Per molte ingiustizie i tribunali e gli avvocati non bastano, per alcune non servono, perché gli aspetti legali, commutativi e compensabili coprono solo una piccola parte del territorio della giustizia, la cui estensione coincide con quella dell’intera vita in comune. Un modo sbagliato di rispondere alla domanda di giustizia è la tendenza, oggi in veloce aumento, a 'giuridicizzare' l’intera vita sociale, codificando possibilmente ogni relazione interpersonale, trasformando tutti i rapporti umani in contratti. Una tendenza-tentazione che, invece di aumentare la giustizia, sta bloccando scuole, condomini, ospedali in trappole di sfiducia reciproca, poiché molti rapporti umani si snaturano quando vengono contrattualizzati.
Luigino Bruni
Luigino Bruni
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Markting policial
O que pode levar uma entidade policial a comunicar que apreendeu 18 milhões de cigarros e não 900 mil maços de 20 cigarros, ou até 45 mil pacotes de 20 maços? Uma questão de zeros à direita, presumo.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Pobres e desdentados, incultos e marginalizados
"Há muitos usuários que são enquadrados como traficantes. Os critérios legais (para a diferenciação) são bastante flácidos. Os pobres e desdentados, incultos e marginalizados, com frequência recebem o carimbo de traficantes.
Esse aumento poderia ser de 200, 300 ou 1.000%. O aumento do número de ocorrências (boletins elaborados sobre tráfico de drogas) fica sempre por conta de quanto a polícia quer prender e de quem ela quer prender. É só uma questão de planejamento e de vontade. Os presos são quase sempre das classes sociais baixas. Se a polícia (que exerce o efetivo poder punitivo) quiser aumentar assustadoramente o número de ocorrências, basta deliberar que vai prender também gente das classes sociais média e alta. Se ela quiser explodir os presídios paulistas só com traficantes, ela tem esse poder. O que não falta é gente envolvida com as drogas (de todas as camadas sociais).
Diariamente são praticados milhares atos que significam, pela lei ou pelo critério policial, traficância. Trata-se de um campo muito fértil para a fabricação de uma delinquência que não significa necessariamente criminalidade. Há muitos usuários que são enquadrados como traficantes. Os critérios legais (para a diferenciação) são bastante flácidos. Os pobres e desdentados, incultos e marginalizados, com frequência recebem o carimbo de traficantes. São delinquentes fabricados, que se distinguem muito do verdadeiro criminoso traficante (chamados de grandes traficantes, que raramente aparecem na estatística policial)."
Luiz Flávio Gomes JusNavigandi
sábado, 24 de agosto de 2013
Jornais
Da demagogia à complacência, a comunicação social fez o seu percurso político nos últimos dez anos. Leitor habitual e habituado, o que posso concluir é que ela cumpriu um propósito do qual, dificilmente, se virá a libertar. Este foi o primeiro agosto em que passei dias sem comprar/ler jornais. Sinto que pouco devo ter perdido. Há um sentido para a vida pública cada vez mais invisível, ainda que em nome da democracia.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
As leis (im)perfeitas
A propósito das inelegibilidades eleitorais, cultivou-se no imaginário cívico que há leis perfeitas. Se as há, a verdade é que serão muito poucas. Num mundo de palavras e de contínua produção legislativa, o que importa, mais do que uma pretensa perfeição da lei, é a adequação eficaz da sua aplicação. A existência de decisões discordantes sobre o alcance da lei das inelegibilidades era expectável. A disseminação decisória no âmbito eleitoral é o pecado original que justifica a atual situação. Um tribunal eleitoral com vocação nacional teria sido a resposta adequada , ainda que com decisões recorríveis para o Tribunal Constitucional.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Senhor do direito e jurado
Já aqui escrevi sobre a necessidade de uma pronta publicidade das decisões judiciais. Talvez ajudasse à contenção teórica e ao aprumo decisório. No nosso sistema judicial, comum na generalidade da Europa, o juiz é, a um tempo, senhor do direito e jurado. Numa sociedade onde o direito abunda, a final quem claudica é o jurado.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Jurisprudência da bebedeira
Um acórdão recente do
Tribunal da Relação do Porto tem suscitado ironias e perplexidades. As
considerações sobre o álcool e os seus efeitos, tal como estão plasmadas na
comunicação social, carecem de rigor científico, ainda que se possa admitir um
propósito humanitário na decisão. No atual contexto social e económico, o despedimento é
uma sanção para a vida. Era isso, preto no branco, que deveria ter sido escrito
e defendido. Uma bebedeira não pode gerar, automaticamente, um despedimento e a
justiça deve tê-lo em consideração.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Crime e ciência
A ciência
na luta contra o crime – Potencialidades e Limites integra um
conjunto de textos, de qualidade díspar, sobre uma matéria que a ficção,
nomeadamente a televisiva, transformou numa espécie de magia. Aliás, é curioso
constatar que esse halo perpassa por todo o livro, desculpando a ciência pelos
insucessos e culpando, pelos mesmos, a inépcia dos mágicos.
A ciência sempre trouxe à investigação criminal
novas técnicas e novos procedimentos, tal como hoje o continua a fazer. Porém,
o que hoje releva é a sofisticação dos meios e, por via disso, uma excessiva
expectativa.
Em que medida o recurso aos meios científicos tem
permitido um maior e melhor esclarecimento dos homicídios e dos seus autores?
Qual tem sido o seu contributo para a decisão judicial? Quantitativa e
qualitativamente é significativo o número de homicídios por esclarecer.
Afastados aqueles casos em que há uma motivação óbvia e próxima, permitindo uma
rápida investigação, muitos dos outros diluem-se no tempo.
Seria importante estudar, caso a caso, as razões dos
insucessos, as insuficiências da investigação e da ciência. Há uma manifesta
falta de reflexão no âmbito da investigação criminal. Não basta arrumar uns
números e alardear alguns êxitos. É também uma questão de ciência, ainda que
social.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Faltou a teoria
Não há uma boa prática sem uma melhor teoria. Governar a justiça penal à deriva dos populismos é trair os princípios que consolidam a civilização. A criminalização do enriquecimento sem causa justa ou a justiça sumária para crimes graves são os exemplos de uma gestão política a que faltou uma teoria das garantias.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
A competência das escutas
Rui Pereira, Coronel da GNR, escreve no DN um artigo que merece ser lido sobre uma eventual alteração da competência policial para a realização de escutas nos termos do Código de Processo Penal. À falta de link, transcrevo um dos argumentos: "A serem verdadeiras as notícias, muito se estranha que o Governo pretenda alterar a repartição de competências entre os diversos órgãos de polícia criminal (OPC), com base no critério dos meios de prova a utilizar, desprezando todos os demais fundamentos que até agora serviram para aquela distribuição, designadamente a especialização em razão da matéria ou da proximidade territorial."
terça-feira, 23 de julho de 2013
Justiça sumária: inconstitucional
Uma das bandeiras da atual governação, a justiça sumária, foi julgada
inconstitucional. Como se escreve no acórdão do Tribunal Constitucional, de 15 de julho, “os casos de flagrante delito não conduzem, só por si, á existência de
prova simples e evidentes, que aliviem as exigências probatórias da acusação e,
muito menos, da defesa, que terá, mais das vezes, maior dificuldade em infirmar
a faculdade que lhe é imputada e carecerá de acrescidas instâncias e
diligências. De todo o modo, ainda que a questão da culpabilidade se apresente
como relativamente pacífica, sempre a questão da determinação da sanção – que
poderá ser superior a cinco anos de prisão – carece de uma exigente análise e
de um juízo crítico dificilmente compaginável com a solidão do titular do
processo sumário.”
sábado, 20 de julho de 2013
Leituras
O seu nome era Toby Bell e estava completamente só nos seus criminosos projetos. Não havia nenhum génio maligno a controlá-lo, nem havia pagador, provocador ou sinistro manipulador armado de uma pasta cheia de notas de cem dólares à sua espera ao virar da esquina, nem tão-pouco um ativista de passa-montanhas. Era, nesse sentido, a criatura mais temida do nosso mundo contemporâneo: um decisor solitário.
(pag. 62)
Subscrever:
Mensagens (Atom)



