quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Para que serve um SEF que tortura?

O SEF é uma estrutura policial que lida com pessoas particularmente fragilizadas: os imigrantes. O que se lhe exige é uma postura funcional que saiba ter em consideração essa especial condição humana. A comunicação social continua a dar conta, agora pelo DN, da sórdida atuação que levou à morte de um cidadão ucraniano nas instalações do SEF no aeroporto Humberto Delgado. O comportamento posterior da instituição e do Governo para com a família da vítima não pode suscitar senão indignação. Já aqui referi o caldo de cultura em que não pode deixar de se enquadrar aquela hedionda conduta criminal. Vale a pena continuar com um SEF assim?

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

SEF

Coincidindo com a divulgação da acusação deduzida pelo Ministério Público contra três elementos do SEF imputando-lhes a prática de um homicídio bárbaro de um cidadão ucraniano, esta instituição publicitou uma operação policial que conduziu ao desmantelamento de um grupo que se dedicava à falsificação de passaportes, e anunciou a inauguração de novas e funcionais instalações no aeroporto Humberto Delgado.
Tratou-se de uma estratégia que, manifestamente, visou diluir o impacto da referida acusação. Com o mesmo propósito inscreve-se a análise que, de uma forma excessiva, pretende criar a ideia, com o medo que lhe é associado, de uma perigosa rede de emigração clandestina de Marrocos para Portugal.
Os factos ocorreram nas instalações do SEF do aeroporto Humberto Delgado e no exercício de funções daqueles.
O trabalho de Joana Gorjão Henriques, no Público, baseado no relatório da averiguação do IGAI sobre a morte do cidadão ucraniano Ihol Homenyuk, é demolidor, e o que foi apurado não pode limitar-se à instauração de processos disciplinares e às eventuais sanções que deles resultarem. O que aconteceu nas instalações do SEF no aeroporto Humberto Delgado só se compreende num caldo de cultura que permite tais práticas e que responsabiliza toda a instituição. 
Neste assunto, o Governo não pode esconder-se atrás do biombo à justiça o que é da justiça

sábado, 31 de outubro de 2020

Corrupção

A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção // 2020-2024 é um documento simpático no propósito e  tímido na convicção. Realço, no entanto, que se considere fundamental "melhorar o conhecimento do crime de corrupção e dos crimes relacionados, afinando a produção de informação, sobretudo com base nos casos já julgados pela justiça". 
O discurso público sobre o crime de corrupção e dos crimes relacionados tem sido dominado por exaltados (as) que cavalgam a ignorância, o medo e a inveja. Só publicitando os factos e os números será possível construir uma análise objetivamente serena que nos permita uma correta avaliação desta matéria criminal.
Acrescentaria que não serão menos relevantes o estudo e a reflexão sobre os casos que ficaram pelo caminho do arquivamento. São um número significativo, traduzindo a inconsistência de muitos dos inquéritos que foram instaurados e permitirão testar os resultados das denúncias anónimas, estas tão perversamente estimuladas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Violência doméstica

De 1 de janeiro a 30 de setembro de 2020, a PSP registou 11100 casos de violência doméstica, traduzindo uma média diária de 40,5. Apesar da magnitude dos números, verificou-se, no entanto, uma diminuição de cerca de 8,5% relativamente ao mesmo período de 2019. Esta diminuição parece-me ser mais resultado do especial contexto pandémico do que o resultado das medidas que ao longo dos anos têm vindo a ser anunciadas.
Seria interessante conhecer os números que a GNR poderia fornecer, com uma dimensão geográfica e social muito diferente da dimensão citadina da PSP. 
A totalidade destes números deveria ser integrado com o número global de inquéritos instaurados no âmbito da atividade do Ministério Público, até porque há queixas que são diretamente a esta entidade.
A leitura sistemática deste fenómeno criminal continua por fazer, com a consequente falta de uma adequada e didática informação pública.

*
A., de 42 anos, foi morta com dois tiros de caçadeira pelo ex-companheiro na via pública. Tinha feiro uns dias antes uma queixa na GNR por ameaças de morte, esclarecendo que este, sendo caçador, tinha armas de fogo. 
Segundo o JN, "as burocracias, tramitações do processo e falta de efetivo levaram a que o processo chegasse ao Ministério Público passados oito dias". Não deixa de ser insolente que à ineficácia das autoridades, estas tentem passar para a vítima uma quota-parte da responsabilidade na sua própria morte. Na continuação do texto transcrito, acrescenta-se: "A agenda da vítima acabou depois de adiar as diligências mais uns dias até ao homicídio".
O que proponho? Uma averiguação imediata ao que se passou.

sábado, 24 de outubro de 2020

Condições carcerárias degradantes

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, por decisão unânime de 20 de outubro, condenou o Estado Português a pagar uma indemnizaçã de 14000 euros a um cidadão romeno que esteve preso numa cadeia do Porto, entre outubro de 2012 e março de 2019. Considerou que as condições carcerárias impostas ao recluso constituíram um tratamento degradante proibido pelo artigo 3º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem ("Ninguém pode ser submetido a torturas, nem a penas ou tratamentos desumanos ou degradantes").

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Declarações de voto

O Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) é um órgão colegial determinante na gestão da atividade do Ministério Público. O conhecimento das suas deliberações, publicitadas através dos respetivos Boletins, afigura-se fundamental numa sociedade democrática. Integrando elementos de várias proveniências, tem nessa pluralidade a sua riqueza. 
É surpreendente que o CSMP tenha perdido tempo discutindo se o teor das declarações de voto proferidas após as votações deveriam ser ou não publicitadas. Contra os votos, entre outros, da Procuradora-Geral da República e de alguns procuradores-gerais, venceu o bem senso. Ou seja: publicite-se o teor das declarações de voto.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Lugares de tribuna

Já lá vão uns anos, participei, no CEJ, escola de formação de juízes e procuradores, numa aula sobre ética e deontologia. Alguém, que admito ser hoje um juiz competente, disse-me, com ar de enfado, que a ética e a deontologia dos magistrados encontram-se nos códigos de processo.
Presumo que os lugares de tribuna sejam aqueles em que melhor se vê, e com mais conforto, um desafio de futebol. Desconheço o número de juízes e procuradores que já assistiram, a convite, a jogos de futebol em lugares de tribuna. Creio também, já que os códigos de processo o não proíbem, que nenhum deles teria sentido uma íntima contradição ou uma inquietação cívica.
A haver um código de deontologia ou uma forte exigência ética na formação, os lugares de tribuna deixariam de ser lugares de tentação?

domingo, 20 de setembro de 2020

Desconcentração judiciária

Rui Rio propôs que o Tribunal Constitucional e o Supremo Tribunal Administrativo viessem a ser instalados em Coimbra. E porque não também o Supremo Tribunal de Justiça e a Procuradoria-Geral da República? Ou o Tribunal de Contas? Na Europa, a República Checa é um caso interessante. O seu centro do poder judicial encontra-se em Brno e não em Praga. É nesta cidade, a segunda em termos populacionais e com uma elevada percentagem de estudantes universitários, que estão instalados o Tribunal Constitucional, os Supremos Tribunais e a Procuradoria-Geral da República.

sábado, 19 de setembro de 2020

Leituras

 

Os homens são iguais porque são livres, e são livres porque são iguais: eis aqui um círculo vicioso à primeira vista, mas uma demonstração verdadeira; e exacta, para quem a quiser aprofundar. A natureza, que nos doou estes dois preciosos bens, que os ligou intimamente com a nossa essência, lhes deu uma tal correlação, uma afinidade e união tão recíproca, que um sem o outro não podem existir - que um sem outro não podem cabalmente demonstrar-se.

A esclarecida nota do editor, bibliographias, pode ler-se aqui.

sábado, 12 de setembro de 2020

Diário

 No que diz respeito ao futebol: Rio - 3, Costa - 0.


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No JN, Francisca Van Dunem, sobre a corrupção; "No plano da repressão não se ganha esta guerra". Uma excelente premissa para um combate sereno à corrupção; sem demagogia mas com eficácia.


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João Ferreira é o candidato apresentado pelo PCP às eleições para a presidência da República. Pelo menos, não sendo comentarista, sabemos o que pensa. A transparência dos propósitos não pode deixar de ser um valor.

domingo, 23 de agosto de 2020

Diário

Leio no JN: "Taxa de crime dos presos libertados devido à pandemia foi quase nula.
É mais uma razão para que a Assembleia da República e o Presidente da República não tenham o medo político de declararem amnistias ou concederem indultos. A amnistia e o indulto são instrumentos de política criminal com importância relevante na reinserção social.

sábado, 8 de agosto de 2020

Leituras

 "Uma outra alternativa teria sido ter-vos apresentado aquilo a que se chama uma conferência de divulgação científica, ou seja, uma conferência destinada a fazer-vos crer que compreendeis uma coisa que na verdade não compreendeis e, dessa forma, satisfazer o que acredito ser um dos mais rasteiros desejos das pessoas modernas, nomeadamente a curiosidade superficial acerca das últimas descobertas da ciência."

pag. 47

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

À bastonada, não

A propósito da violência policial, escrevia-se no Le Monde diplomatique de julho: "Trop souvent requises pour réprimer des mouvements sociaux,  avec une brutalité remarquée, les forces de l`ordre ont vu leur mission se confondre avec celle d`une garde prétorienne du pouvoir. Leur popularité n` y a pas résisté."
Há uns tempos, pela televisão, puderam ver-se as imagens de elementos policiais a agredirem jovens turistas estrangeiros, de uma forma brutal, logo desajustada, presumo que em nome da luta contra a pandemia. O mínimo que se impunha era a instauração de um inquérito perante o que se afigurava como o exercício abusivo de autoridade. Creio que o não foi.
Há uns dias, em Coimbra, as imagens traduziam mais uma vez um excessivo exercício de violência policial, o que mereceu a legítima indignação de uma agremiação desportiva.
Por mais largas que sejam as costas da pandemia, a verdade é que nem as desigualdades sociais nem os vírus se eliminam à bastonada.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Diário

O Imaginarium fechou.

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O calor mata, já o sabíamos; mas não tanto. O que nos vier a acontecer no inverno será do frio?

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No último encontro, Filipe VI e Marcelo terão analisado as condições da passagem de Juan Carlos por Portugal, a caminho do exílio. Não deixa de ser irónico que o pretexto para o encontro tenha sido a visita a um museu.

sábado, 1 de agosto de 2020

Diário

Sou um utilizador habitual do Alfa; o acidente ontem ocorrido fez prova da sua resistência estrutural, reafirmando-o como um excelente e seguro meio de transporte.

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No Jornal de Notícias, no âmbito de uma reportagem sobre o cancro do pulmão, leio que se estima "que, entre março e maio, tenham ficado por fazer 60% dos diagnósticos". Pode proteger-se a saúde aqui, desprotegendo-a ali? Com que critérios? Os que fomentam o pânico nos telejornais?

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Uma proposta pobre

As duas últimas páginas da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2020 são dedicadas à justiça.
Apesar do seu autor não ser um especialista nesta área, talvez tivesse sido possível não se reduzir a um conjunto de estereótipos que têm sido o alfa e o ómega daquela.
Seja como for, aqui fica, para memória futura, o que é proposto pelo Profº Engenheiro António Costa Silva:
"Em termos da melhoria da justiça económica e fiscal, que é importante para a estabilização e recuperação da economia portuguesa, recomendam-se as seguintes medidas:
§ Melhorar toda a gestão dos processos judiciais, tornando-a mais eficaz e produtiva; 
§ Simplificar as etapas dos processos judiciais facilitando a sua tramitação eletrónica;
§ Dotar o sistema de infraestruturas e equipamentos consentâneos com a desejável dinâmica de modernização; 
§ Remover dos tribunais, dentro do possível, processos que “parasitam” o sistema como os relacionados com as insolvências, litígios específicos e fiscalidade.
§ Fomentar a utilização dos meios de resolução alternativa de litígios em Portugal; 
§ Estimular os operadores judiciais a utilizar os meios alternativos de resolução dos litígios tendo em conta que são mais rápidos e menos onerosos;
§ Fomentar a adoção de recursos extrajudiciais de troca de informação, que são sempre facultativos, têm um formalismo reduzido, mas que podem muitas vezes aproximar as partes, criar condições para um acordo e assim pouparem a energia dos tribunais;
§ Estimular a aplicação pelos juízes das técnicas de conciliação judicial
§ Explorar o potencial dos protocolos pré-judiciais e dos meios de arbitragem para a resolução de conflitos; "

terça-feira, 21 de julho de 2020

"Absolutamente inceitável"

Disse-o o ministro Eduardo Cabrita a propósito da morte de um cidadão ucraniano ocorrida quando se encontrava à guarda do SEF. Decorridos mais de quatro meses sobre essa morte violenta, num país onde o segredo de justiça se tornou de Polichinelo, o silêncio que envolve os inquéritos então instaurados, devendo ser a prática corrente que o não é, não deixa, por isso, de gerar uma legítima desconfiança.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

+ de 4000

Leio que o Ministério Público deduziu uma acusação com mais de 4000 páginas. Mesmo desconhecendo-se a medida das letras ou o espaço entre as linhas e o número destas por página, não se pode deixar de concluir que é uma acusação grande; muito grande mesmo, então se for contabilizada em caracteres. Tenho a certeza que há grandes romances sem tantos caracteres, mas que nem por isso deixaram de ser obras-primas. O Código de Processo Penal fala da acusação como uma "narração, ainda que sintética, dos factos que fundamentam a aplicação ao arguido de uma pena ou de uma medida de segurança". É capaz de haver factos que não caibam numa síntese; será o caso.

*Negrito da minha responsabilidade

sábado, 4 de julho de 2020

Nacionalizar para vender

As consequências do imbróglio financeiro, económico e social criado com o arresto do capital maioritário que a engenheira Isabel dos Santos detinha na EFACEC, sendo já evidentes, estão ainda longe de uma total contabilização. Pergunto-me se uma justiça pode ser tão autónoma, os seja, tão cega, que deva tomar uma decisão que se sabia ir paralisar uma empresa cuja relevância nacional não era publicamente ignorada. A solução encontrada pelo Governo - nacionalizar o bem arrestado para o vender e entregar a quantia obtida a quem a justiça, posteriormente, vier a dar razão - é uma artimanha que não deixará de contagiar a confiança de outros investidores estrangeiros. Será interessante vir a conhecer as cláusulas de garantia que o comprador do bem arrestado-nacionalizado exigirá para obviar a futuros imbróglios jurídicos.

sábado, 23 de maio de 2020

Diário

Há dias, Marcelo, o comentador, aviou mais um ministro; não resistirá à tentação de vir a aviar um primeiro-ministro.

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Iniciei este blogue há dez anos. Com mais ou menos assiduidade, fui postando ao sabor dos dias e contra a corrente. Ainda não sei se a pandemia é uma razão para acabar ou para continuar.

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Contra o esquecimento, é fundamental a leitura do texto de Eduardo Pitta sobre a morte violenta de um cidadão ucraniano quando se encontrava sob a tutela do Estado Português. Aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Diário

Valeu a pena? É difícil adivinhar o juízo da história. Desconfinar é começar a esquecer.

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As medidas de clemência foram justificadas, ainda que pudessem ter sido mais corajosas. 
Em França, entre 16 de março e 23 de abril, o número de presos passou de 72600 para 61100 (-15,8%).
A pandemia talvez seja um bom pretexto para repensar a prisão como paradigma da justiça.

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É o tempo das máscaras. Entrarão nos nossos hábitos?

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Diário

Segundo o Expresso de 25 de abril, houve uma redução de 80% nas análises clínicas, 95% na imagiologia e 100% em exames de cardiologia e gastroenterologia.
Quando for o tempo de recuperar estes exames que ficaram por fazer e que, com certeza, se continuam a acumular, qual será a capacidade de resposta dos serviços de saúde?

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Em tempo de pandemia, o espaço para os juristas é pequeno. Que a febre seja medida aos trabalhadores nas empresas, poucas, ainda em laboração, será uma medida sanitariamente cautelar, entre outras, que o bom senso aconselha.

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Se é verdade que a cor do medo será a da prudência, não é menos verdade que o excesso de prudência nos deixa inertes e sem futuro.

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Ainda voltando ao Expresso de 25 de abril: confinamento maior nos concelhos mais ricos. Evidentemente. Para os mais ricos, o confinamento é uma aventura; para os mais pobres, é uma tragédia.

sábado, 25 de abril de 2020

O EXACTO BEM*

Só se deve sonhar em comum.

O pensamento não cinge, converte.

É preciso despegar a alma das fibras dos sentimentos.

Abominar a realidade, mas não lhe fugir.
Ter documentos móveis e instantâneos, que se enovelam e decifram.
Ser um gato, parado, ao sol, que abre de vez em quando uns verdes olhos, cheios de cambiantes.
Calar o medo e o pavor.

O que sobra de nós, fica nos outros. Que o repelem.
O constrangimento revela a diferença e a suspeita.
Nenhum entendimento entre a água e a pedra.

É preciso somar os minutos inconformes. E atirá-los à cara do primeiro transeunte.

Dominar - a correr - a imaginação. Causa de tantas mortes.

14 de Fevereiro de 1969.

*Raul de Carvalho (1920-1984), do livro um e o mesmo livro, 1984, Editorial Presença

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O dia seguinte

O sermos periféricos terá sido um fator positivo na defesa da pandemia; basta ver a sua cartografia na Europa para concluirmos que o "estar longe" foi um benefício. Já no que diz respeito ao dia seguinte, a periferia não será assim tão benéfica. Como começar? Por onde começar? As respostas têm sido tímidas. Pelo menos, há uma pequena economia de subsistência em que subsistir é urgente.

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A austeridade será social e ecológica. Menos beijos e abraços, mais gratidão. Menos praia e mais campo. Mais férias repartidas. Menos megas de tudo. Será?

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Seremos mais estranhos. Perigosamente.

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A máscara não poderá ser um amuleto.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Desconfi(n)ar

Agendar o desconfinamento será mais complexo e menos politicamento consensual do que ter determinado o confinamento. Para quem o confinamento é uma ascese ou um trunfo, bem pode continuar; para quem é uma porta sem futuro, há que o preparar sem medos, ainda que com riscos. Do que se lê, parece não haver na Europa apenas um modelo de desconfinamento. O nosso começou a ser anunciado, talvez menos ousado do que o da Dinamarca ou da Áustria. Seja qual for, no tempo político que aí vier, haverá os que o acharão ter sido timorato ou, sendo os mesmos, o acharão oportunista e precipitado: dependerá dos resultados.